Death Note - Análise Técnica

Death Note é, provavelmente, o anime que mais influenciou a comunidade de animes atual no ocidente, principalmente por conta de seu papel como shounen alternativo (obra direcionada para um público masculino jovem, mas que foge um pouco da comum trama de, por exemplo, aventura e lutas). Por conta de sua popularidade extrema (ele é considerado o anime mais popular do Myanimelist, por exemplo), a obra causa algumas dúvidas sobre sua real qualidade técnica e de execução, como causou em mim. Nessa análise, trago a minha opinião sincera a respeito da técnica de produção da obra, de acordo com a análise de alguns aspectos como equipe de produção, obra original, entre outros importantes nessa visão.

Assisti Death Note em Julho de 2018, após quase 6 anos adiando por falta de interesse e afins, e minha experiência você confere abaixo:


Death Note é um anime de 2006 baseado em um mangá homônimo de 2003 escrito por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata (os mesmos autores de Bakuman, minha obra preferida).

Apesar de ter sido um dos primeiros animes que conheci e assisti a alguns episódios (mais especificamente, o primeiro e o último), eu só fui o assistir bem mais recentemente, há cerca de 2 anos.

É um anime de mistério e suspense com foco psicológico e sobrenatural, que gira em torno de um garoto que encontra um caderno capaz de matar qualquer pessoa que tiver seu nome escrito, jogado na terra por um Shinigami, ou deus da morte. A partir disso, Yagami Light (ou Raito, na pronúncia original japonesa), resolve agir como um deus justiceiro, assassinando bandidos compulsivamente, com o objetivo de instaurar a paz no mundo.

A animação alcançou extrema popularidade na comunidade japonesa e internacional por sua premissa inovadora e reflexões interessantes propostas, mas por isso, também passou a ser taxado de supervalorizado por alguns. Mas um fato é que o anime possui uma história relativamente bem construída, e respeita bem a proposta apresentada.

Com a inserção de uma rivalidade entre Kira (apelido que ficou conhecido de Light) e L (codinome de um famoso detetive da Interpol), foram apresentadas diversas disputas psicológicas, com desfechos inteligentes e detalhados, o que animou bastante os expectadores na época (era uma premissa muito único entre os animes conhecidos). E de fato, atualmente o vejo como uma das melhores representações de animação com teor investigativo-policial, e de mistério.


A obra costuma ser dividida em duas partes, uma com presença de dois personagens mais importantes, e uma segunda, quando um deles é substituído por outros dois. Essa segunda parte, inclusive, é estabelecida por muitos como muito inferior à sua primeira. De fato, a obra possui pontos mais baixos nesse sentido, tanto na sua primeira parte (como no arco em que Light é feito de refém por L, para provar não ser o dono do caderno, que achei extremamente enrolado e cansativo), como em sua segunda, que de fato considero inferior à primeira. Mas para mim, à medida do possível, os criadores se esforçaram para manter a ideia principal da obra, e sua organização, mesmo para a adaptação de um mangá extendido da grande revista Shounen Jump (que costuma menter suas obras por mais tempo para aumentar seus lucros).

De qualquer forma, pude aproveitar bastante o embate ideológico e engenhoso entre Kira e L, em suas duas partes, e torcer por cada um deles em seus próprios momentos (mesmo que o meu preferido seja o Kira, por puro vínculo emocional mesmo, e mesmo sem concordar com seus ideais).

O visual do anime é majoritariamente tradicional, como era de costume nas obras da Madhouse da época, com um traço denso e marcante que dá para o anime um ar mais sério. A coloração escolhida é mais escura, também com o propósito de passar uma tensão de um anime de suspense.

O design de personagens herdado do mangá original, feito por Obata Takeshi, vale muitos pontos para a obra, como era de se esperar de um dos meus desenhistas preferidos da Shounen Jump (ele fez os designs também de Aoi Bungaku Series, Bakuman e Hikaru no Go). Algumas escolhas, como a do design do Shinigami, fazem muito jus à sua presença no mangá, assustador, mas com uma pitada cômica, o que rendeu para muitos a força do gênero terror na obra.


A Madhouse se utilizou de muitos de seus animadores fortes para trabalhar na obra na época, tais como Kitao Masaru (Cardcaptor Sakura, City Hunter), Kagami Takahiro (Banana Fish, Mushishi), como diretores de animação chefes, Nishii Teru (Precure, Inuyasha), Takaoka Junichi (Shingeki no Kyojin: Kuinaku Sentaku, Hajime no Ippo) e Umakoshi Yoshihiko (Berserk, Cowboy Bebop: Tengoku no Tobira) como animadores-chave, entre outras funções.

A equipe visual, como um todo, foi bem pesada, como nos aspectos de arte (com design artístico pelo próprio Sugiyama Shinji -- Bakemonogatari, Bakuman, Chihayafuru--, e direção de arte por Isshiki Mio -- Aoi Bungaku Series, Monster), storyboard, arte de fundo, limpeza, coloração e fotografia, o que impediu o anime de ser uma falha nesse sentido, e entregar exatamente o que necessitava para uma experiência praticamente impecável.

Talvez o meu ponto preferido do anime seja a sonoplastia. Ele possui músicas bem trabalhadas na intensidade, para passar o efeito de tensão esperado para um anime com ponto principal no suspense. O trabalho de Taniuchi Hideki (Aoi Bungaku Series, Kaji) e Hirano Yoshihisa (Hunter x Hunter (2011), Hajime no Ippo Rising), os responsáveis principais pela música, não deixou a desejar, com uso de guitarras e baixos, e, nos momentos certos, escolhas mais orquestrais (lembrando que a obra teve um próprio condutor de orquestra, Haishima Koi -- Jojo no Kimyou na Bouken: Parte 3, Psycho-Pass --, e as performances Yamashiro Junko, Tsujimoto Kenichi e Fujita Itohiko, no sopro, entre outros).


A direção de som é de Yamada Tomoaki (Hunter X Hunter (2011), Kiseijuu: Sei no Kakuritsu), que captou bem a atmosfera do anime para organizar sua música, efeitos sonoros entre outros detalhes. Meus reconhecimentos vão também para os responsáveis por efeitos sonoros, como Komiya Rie (Sen to Chihiro no Kamikakushi, Kumo no Mukou, Yakusoku no Bashou), produção de som e as performances das músicas tema.

Como principais músicas da trilha sonora, temos "L's Theme", "Death Note Theme", "Kyrie", "Domine Kira", "Low of Solipsism", "Light Light's Up Light", entre muitas outras (se eu fosse citar todas as que eu gosto, poderia mais facilmente indicar todos os albuns). Quanto às músicas temas, todas são incríveis, mas destaco a abertura 2, "What's Up People!", dos Maximum The Hormone, e os encerramentos 1, "Alumina", de Nightmare e 2, "Zetsubou Billy", também dos Maximum The Hormone. Eu nunca fui fã de metal, especificamente, mas a abertura 2 de Death Note foi um de meus primeiros contatos com uma abertura de anime que realmente me deixou com vontade de o assistir, então a respeito muito.
Para uma análise do que mais parece a direção, mas não de forma tão específica, citarei algumas das posições da equipe de produção de Death Note que ajudaram a trazer o resultado final da obra, interpretando bem o seu objetivo, e o traduzindo em animação.

Em primeiro lugar, temos um trabalho muito proficiente dos roteiristas do anime para transformá-lo em um grande sucesso e arcabouço de qualidades técnicas, como por exemplo, de Inoue Toshiki (Fullmetal Alchemist, Dragon Ball), que trabalhou em cerca de 22 episódios, Yonemura Shoji (Fairy Tail, Hunter X Hunter (2011)), que trabalhou em cerca de 9 e Kobayashi Yasuko (Shingeki no Kyojin, Jojo no Kimyou na Bouken), que trabalhou em 5. Como é perceptível, os dois primeiros tinham muita experiência com shounen, e tiveram que adaptar seu trabalho a um shounen com ponto de vista mais construído como Death Note, o que fizeram com facilidade. Já o último, com experiência mais reles na época, porém variada, construiu sua imagem como roteirista de bons suspenses.

Com direção por Araki Tetsuro (o mesmo diretor de Shingeki no Kyojin, Gakuen Mokushiroku: High School of the Dead), este foi o seu primeiro grande trabalho como diretor, depois de trabalhar na parte da narrativa de Galaxy Angel (de onde veio grande parte da equipe de produção) e Gungrave. Foi com a obra que ele pôde desempenhar um papel grandioso como organizador, que levou posteriormente a Aoi Bungaku Series, Kurozuka e Guilty Crown, além, claro, dos sucessos High School of the Dead e Shingeki no Kyojin, juntamente com Kotetsujou no Kabaneri.

Bom, contamos também com inúmeros diretores de episódio que ajudaram a conter e direcionar as escolhas da direção, como Ito Tomohiko (que posteriormente viria a dirigir Boku Dake ga Inai Machi, além do próprio Sword Art Online), entre outros. A edição, uma das partes mais importantes na tradução das ideias do diretor em cenas animadas, foi feita por Hida Aya (Shingeki no Kyojin, Gakuen Mokushiroku: High School of the Dead, assim como Araki).


Como resumo, todas as equipes trabalharam com qualidade para transformar a obra no que se tornou, marcando-a como um dos maiores sucessos entre séries anime da década passada (2001-2010), e um dos maiores símbolos da indústria no mundo, como um todo. A adaptação da obra original reapresentou a proposta de forma unicamente memorável e relevante, como sua própria origem, e por isso, ela merece o meu respeito e facínio.

NOTA FINAL: 9,8

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